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Cultura de engenharia

As referências do papo. De onde veio cada coisa que eu falei.

O gargalo nunca foi técnico

1968

Melvin Conway

How Do Committees Invent?

O paper original da Lei de Conway. Repare na direção da seta: o design do sistema não é influenciado pela organização, ele é uma cópia da estrutura de comunicação dela.

1975

Fred Brooks

The Mythical Man-Month

Prazo não se compra com gente: o custo de coordenação cresce mais rápido que a capacidade que entra.

1987

Tom DeMarco e Tim Lister

Peopleware

Os maiores problemas do nosso trabalho não são tecnológicos, são sociológicos. Quase vinte anos depois do Conway, a ideia finalmente vira livro de gestão.

O dito e o feito

1974

Chris Argyris e Donald Schön

Theory in Practice

Separam a teoria que você declara da teoria que seu comportamento revela. E o achado que salva a conversa de virar denúncia: em geral a pessoa não sabe que as duas divergem. Não é hipocrisia, é invisibilidade.

1985

Edgar Schein

As três camadas da cultura organizacional

Artefatos, valores declarados e pressupostos básicos. Quando a camada 2 e a camada 3 discordam, a 3 ganha. É por isso que escrever o doc não muda nada sozinho: o artefato não tem acesso à camada que decide.

O termo nasceu como crítica

1992

Gideon Kunda

Engineering Culture

O livro que cunhou a expressão, e o trocadilho do título é a tese: não é a cultura dos engenheiros, é engenhar a cultura. Kunda argumenta que o discurso de ambiente informal e flexível opera como controle normativo. O primeiro uso canônico do termo já era uma desconfiança, e ele virou requisito de vaga.

Onde a decisão não escrita mata gente

1996

Diane Vaughan

The Challenger Launch Decision

De onde vem normalização do desvio. Nenhuma daquelas decisões foi errada sozinha, cada uma era defensável no dia, e a soma derrubou o ônibus espacial.

2004

Ron Westrum

A typology of organisational cultures

Classifica cultura por fluxo de informação em vez de por valores. A pergunta não é o que a empresa valoriza, é o que acontece com a má notícia. É o teste mais honesto da lista, porque não dá para trapacear nele com um doc bem escrito.

2012

John Allspaw, Etsy

Blameless PostMortems and a Just Culture

Se for ler um só, é esse. O postmortem sem culpado é prática cultural com mecanismo, não valor pendurado na parede: tem passos, e foi desenhado para mudar uma decisão que ninguém consegue obrigar, a de contar o que realmente aconteceu.

Os manifestos, e a ressaca

2009

Netflix

Culture Deck

O documento que fundou o gênero, com mais de 15 milhões de visualizações. Vale reparar que é um deck de talent, não de engenharia, o que explica por que esses documentos soam como material de recrutamento: eles são.

2015

Google

Project Aristotle

Cerca de 180 times medidos. O maior preditor de eficácia não foi composição, QI coletivo nem habilidade técnica, foi segurança psicológica. Ou seja: se a pessoa decide falar.

2018

Nicole Forsgren, Jez Humble e Gene Kim

Accelerate e os relatórios DORA

Pegam a tipologia do Westrum e validam empiricamente. Olhe o que exatamente foi validado: fluxo de informação. Não valores, não rituais, não o doc.

2020

Jeremiah Lee

Spotify's Failed #SquadGoals

O artefato cultural mais copiado da década de 2010 descrevia uma empresa que não existia, nem na empresa que o publicou.

2016

Zach Holman

How GitHub (no longer) Works

O mesmo autor de How GitHub Works voltando anos depois para contar que a empresa adotou hierarquia, gestores e decisão de cima para baixo. Os dois textos lado a lado são um caso completo em dez minutos de leitura.